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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Um conselho.

"Meu amigo, é preciso ter paciência e coragem. Espera-te uma sorte mais invejável que a minha: você é cem vezes mais artista do que eu; mas que Deus te dê, pelo menos, um décimo da minha paciência. Estude e não beba, como te dizia aquele bom proprietário, e, principalmente, começa tudo de novo, pelo a-bê-cê. O que te aflige? A pobreza, a indigência? Mas a pobreza e a indigência formam um artista. Elas são inevitáveis, no início. Por enquanto, você não é necessário a ninguém; ninguém quer saber de você; assim é o mundo. Espere, e mais coisas acontecerão quando souberem o que você vale. A inveja, a mesquinhez, a ignomínia e, sobretudo, a estupidez vão pressioná-lo  mais que a miséria. O talento precisa de simpatia, necessita ser compreendido, mas você verá que semblantes hão de rodear-te quando você atingir ainda que uma ínfima parte do objetivo. Hão de amesquinhar e olhar com desprezo aquilo que você conseguiu à custa de um trabalho árduo, de privações, de fome e de noites de vigília. Os teus companheiros futuros não te animarão, nem hão de consolar-te; não apontarão em você aquilo que tem de bom e de verdadeiro. Mas, com maldosa alegria, destacarão cada erro teu, e hão de te mostrar justamento aquilo que você tem de ruim, aquilo em que se engana e, sob uma aparência de indiferença e desprezo, festejarão cada um dos teus erros (como se existisse alguém infalível!). Quanto a você, é arrogante e, muitas vezes, inoportunamente orgulhoso, e te arriscas sempre a ofender alguma nulidade inflada de amor-próprio. Será esse o teu mal: ficarás sozinho contra muitos e vão suplicar-te com alfinetadas. Eu próprio começo a experimentar isso. Anime-se agora! Você ainda não está muito empobrecido, pode ganhar a vida, não despreze o trabalho braçal, vá rachar lenha, como eu rachava nas festinhas de artesões pobres. Mas você é impaciente, está doente à força da impaciência, não tem suficiente simplicidade, fica maquinando coisas em excesso, pensa demais e faz trabalhar muito a cabeça; você é audacioso em palavras, mas teme quando se trata de empunhar o arco do violino. Tem demasiado amor-próprio, mas escassa coragem. Seja mais ousado, espere, estude e, se não confia em suas forças, atire-se ao acaso: de qualquer modo, não perderá, pois o ganho é sempre grande. Sim, o nosso caso, irmão, tem algo de grandioso."


Niétotchka Nizvânova - Fiódor Dostoiévski

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Cara Sapatos Esfarrapados


"Apoiei a revista no balcão e apaguei a dedicatória para a Princesa Maia. Em seu lugar, escrevi:


Cara Sapatos Esfarrapados:

Pode não saber disso, mas na noite passada você insultou o autor desta história. Sabe ler? Se souber, invista quinze minutos do seu tempo e deleite-se com uma obra-prima. E da próxima vez seja cuidadosa. Nem todo mundo que vem a este antro é um vagabundo.

Arturo Bandini"

Pergunte ao pó - John Fante

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Disse o primo de Holden Caufield:

“Ontem à noite choveu muito, mas não o suficiente. Ontem à noite choveu mas não me surpreendeu, não me surpreendeu mesmo. O estranho. na verdade, é não ter transbordado tudo. Foi isso que me surpreendeu.
Vou ter que me acostumar...
...Ou o que resta de mim. Resta o básico, suponho: a moldura, a matriz, os freios. O que mudou, o que perdi fora a catraca, a corrente, o guidom. Consegui substituí-los por peças novas, mais fortes, mais confiáveis, mas não é a mesma coisa. Não poderia ser, suponho. Quando a gente aposta alto, se mete em caminhos difíceis, não transitados, não pode esperar sair dali sem tropeços. Fica a estrutura, claro, mas mudam as peças. E não é a mesma coisa porque, no fim, a gente sempre presta atenção nos detalhes. Os detalhes são o que conta.”

 Baixo Astral  - Albert Fuguet