domingo, 24 de fevereiro de 2013

Isso não é um engano


- Alô, com quem eu falo?
- Com quem você gostaria de falar?
- Olha, essa pergunta é meio difícil de responder... Porque eu gostaria de falar com muitas pessoas. Com a Angelina Jolie por exemplo; com a Luana Piovani se ela não fosse tão antipática; com aquela Panicat morena dos cabelos cacheados, como é mesmo o nome dela? Não, não... Ela não é Panicat, acabo de me lembrar, ela é do Caldeirão do Huck, eu acho... Sabe?
- Vou ficar devendo essa informação...
- Tudo bem. Agora se você quer saber com quem eu PRECISO falar, eu infelizmente preciso falar com o Lázaro. Mas acho que eu me enganei de número, não é?
- Pois é. Essa não é sua noite de sorte...

Fez meu domingo, Brasil.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

De Cila do Lino e Luiz doido, todo mundo tem um pouco.


Calçada é sempre um ótimo lugar pra embalar uma conversa, uma boa conversa. Se o assunto for sobre o passado então, melhor ainda! Agora, se os interlocutores partilham as mesmas histórias, bem, aí conversa deveria durar a noite inteira :)

Eu moro em uma cidade com aproximadamente 3 mil habitantes. Por aqui a gente mais ou menos conhece todo mundo, e se não conhece, basta alguém refrescar a nossa memória; "é filho de fulano, casado com ciclana, amante de beltrano!" funciona. Já a birutice alheia todo mundo conhece de cor. E preciso confessar que apesar do número assustadoramente pequeno de habitantes, temos uma bela lista de personalidades com parafusos a menos. Nossos ilustres malucos são como patrimônios históricos da cidade - disseminam jargões, tocam o terror, ridicularizam os "normais" (essa é sempre a melhor parte), e justamente por isso quando ao acaso "somem do mapa",  fica um  enorme vazio nas ruas dessa vilinha quase fantasma.

Atendendo  a pedidos de uma pessoa ~ quase normal ~ aqui vai a uma lista dos principais integrantes da turma da camisa-de-força:

Carlito - O Carlito vem em primeiro lugar porque vira e mexe em alguma conversa nós lembramos dele, e sempre com a pergunta "onde foi parar o Carlito?". Esses dias me disseram que ele está bem, só isso, mas enfim. O Carlito de longe até que era bem normal, viu? Passava o dia inteirinho andando de bicicleta. Mas aí, se você desse um capacete pra ele... Ele passava o dia todo andando de bicicleta usando o capacete. O mesmo acontecia se você desse um chapéu de palha, um colar de pérolas, uma bota e bem, por aí vai. O Carlito era o tipo de louco "bonzinho" que até fazia favor pros outros e não incomodava. Ninguém ficava puto se, por exemplo, ele se sentasse junto com a gente no banquinho da praça. Muito pelo contrário! O Carlito era bem-vindo porque era engraçado, não de um jeito que as pessoas tirassem sarro dele, de um jeito natural, dando seus preciosos pitacos. E o Carlito também sabia "coisas". Não, ele não era vidente. Só tinha um lado meio fofoqueiro, e era só apertar pra gente ficar sabendo de um monte de barbaridades, hehe!

Legal - A Legal era a nossa quiromante oficial e por isso o apelido; chegava, pegava na mão da gente e ficava "hmmm, legal, legal...hmmm, legal, legal você vai conhecer uma pessoa...hmmm, legal". Desde que eu me lembro ela sempre foi bem velha, desdentada e uma boa avó durante o dia. Mas quando anoitecia ela entrava na pista pra negócio. Estava sempre em todas as festas, TODAS as festas possíveis. Acho que só eu não tenho uma foto de balada ao lado dela e infelizmente nunca terei. Ela morreu fazem uns dois anos, em uma festa de peão. Caiu da arquibancada e bateu a cabeça. Mas pelo menos morreu fazendo o que mais gostava - festando legal, como ela mesmo dizia.

Cidinha Sabugo - A cidinha sabugo era uma senhorinha magrinha-magrinha, com cara de índia. Andava sempre com uma sacolinha de marmita embaixo do braço e com a saia em cima dos peitos. Praticamente não conversava, mas quando queria xingar, saísse de perto quem não quisesse ouvir os mais baixos palavrões. Ela almoçava quase todo domingo em casa e ainda levava uma quentinha pro seu velho. De repente sumiu. Dizem que morreu.

Luiz Doido - Esse era um louco temido. Catador de latinhas, andava pra cima e pra baixo com um chicote na mão. Ele não fazia mal se você não o perturbasse, mas quem não conhece moleque que compre uma meia dúzia né não? Direto eu via ele correndo com o seu chicote atrás de algum sacaneador mirim. Uma vez ele acertou uma bela duma chicotada nas costas de um amigo meu, porque achou que ele é que tinha o insultado. Até hoje choro de rir quando lembro dessa história o de vergão de chicote nas costas do coitado. Luiz foi embora, mas direto eu vejo a mulher dele vagando nas cidades vizinhas, sempre bem arrumada e catando latinha. Talvez esteja o sustentando. Fica a dúvida.

O Gordo - Nossa, desse eu tinha PAVOR! Sério, pa-vor, me-do, pâ-ni-co. Logo que eu mudei pra cá me deparei com as cenas assustadoras que ele protagonizava. Era deixar o portão aberto pro gordo entrar pelado na casa alheia gritando "dãdãdã" e outras coisas incompreensíveis. Ele era novo, devia ter uns 14 anos nessa época e pouco tempo depois foi internado, pro meu alívio. E deve super adorar usar aquelas roupas de hospitais que deixam a bunda de fora.

Manda Chuva - O Manda Chuva é bem conhecido na região pelo seu ~ dom ~ de chamar chuva. Na verdade ninguém acredita nisso, mas ele mesmo sai espalhando como quem não quer nada seus feitos milagrosos pra desconhecidos; "Ce-ce-ce viu aquele cara pe-pe-dindo chuva? E choveu viu!" flagrei esse migué uma vez no circular. E na maioria das vezes ele realiza seu ritual exatamente quando desce do ônibus em frente o sítio que ele mora. Desce e logo em seguida começa a gritar "MANDA CHUVA SÃO PEDRO, MAAANDA CHUVA, TCHÔ TCHÔ TCHÔ! MANDA CHUVA SÃO PEDRO!" Só que ele também não faz cerimônia, grita em qualquer lugar que ele achar que precisa de uma chuvinha. Mas ele usa seus dons principalmente se algum pilantra pedir. E olha, gritando ele não gagueja nadinha, fato. Pra completar ele anda com uma bandeira de Santo Reis a tira colo, um louco todo personalizado.
Ovo em cima do telhado pra quê?

Beleza - O Beleza não é exatamente um louco. É um bêbado. Mas o que é realmente legal no Beleza é que ele quer parecer sóbrio. A gente sempre manja ele ensaiando quando vai se levantar, ensaiando uma conversa antes de chegar em alguma pessoa ou ensaiando como vai andar até sua bicicleta que sempre está caída em algum canto. Toda vez é assim, testa os passos, toma impulso e vai! Vai totalmente bêbado mas jurando que ta bem. Repetindo "Beleza, beleza... Ta tudo beleza!". Beleza é boa praça, e também não incomoda ninguém.

Sabará, Sabão e Pai-João - Também não são exatamente doidos, a loucura do trio é 90% culpa da pinga. De dia são uma família normal, mas de noite o bicho pega.  O Sabão e o Pai-João só ficam falando bobeira, nada de grandioso. Mas o  Sabará é um bêbado politizado. É só ele beber pra começar a falar de tudo que é merda que a prefeitura aprontou ou continha aprontando. Mas ele tem mesmo é "mágoa" de um ex-prefeito daqui, porque quase sempre é em frente a casa desse ex-prefeito que o Sabará fica gritando os podres políticos que sabe, principalmente os podres do mandato dele. Atitude que pra falar a verdade, dou total apoio.

Negão da paçoca - Ele realmente não é doido, eu acho. É um andarilho que vende amendoim, paçoca e pudim nas festas, em jogos, mas as vezes nem precisa ter um evento pra ele aparecer. Ele chega, arma sua cadeira e sua mesa e fica benzendo com seu saquinho de amendoim quem passa perto dele. O que ele tem de louco é o apetite. É uma lenda viva esse daí. Apesar de não ser da minha cidade, ta direto por aqui e já tive o desprazer de vê-lo comer um pudim inteiro (sim, as pessoas compram o pudim dele pra ele mesmo comer), depois comer dois  lanches enormes e ainda tomar dois litros de coca. Sozinho. Por isso se você passar por essas bandas, e ver uma rodinha de pessoas gritando "VAI, NEGÃO!" não se assuste.

Cila do Lino - Desses não faço ideia do fim que tiveram. A Cila devia ter uns 40 anos quando não saia do posto de saúde porque estava grávida. De 18 meses. Do seu marido Lino. De quase 80 anos. Manja o Eustácio do "Coragem - O cão covarde" ? Então!O Lino era a personificação dele. E a Cila era tipo o Luiz Doido, não apresentava perigo se você não mexesse com ela. Mas ODIAVA principalmente, quando alguém mandava beijo pra ela. Eu sei porque fui inventar de não seguir o "conselho" do meu tio quando eu nem morava aqui, tava de férias e tinha só 10 anos. Veja bem, se você diz pra uma criança de 10 anos não mandar beijo pra uma pessoa, porque essa pessoa vai surtar, ficar doida, e fazer coisas doidas, o que você acha que essa criança vai fazer? Pois é, foi o pior beijo da minha vida, a minha sorte é que naquele tempo eu adorava correr.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Pessoas são incríveis 02#

Quando tava rolando a pior pendenga amorosa da minha vida, contei pra uma amiga que eu havia conhecido um ~ outro cara ~ e que a pendenga tinha  conseguido ficar pior ainda com o dilema trair or not trair. Daí que essa amiga segurou bem forte minhas mãos, olhou no fundo dos meus olhos e disse "olha, essa história só pode ter dois finais: ou você vai ficar com esse cara e gostar muito, ou você vai ficar com esse cara e não gostar nada. Mas de um jeito ou de outro, você vai acabar ficando com esse cara, sinto muito dizer isso". Mentira. Ela não segurou minha mão e a bandida mal tava olhando pra minha cara, mas devido a toda essa demonstração de sensibilidade apurada (!) e desse dom premonitório (?) eu percebi que aquela ali seria realmente uma grande amiga, seria A bff ♥, e minha migs preferida, com certeza a bundudinha mais importante, e como não falar do olhinho fechado mais legal de todos - mas só pra concluir o caso abordado no começo do texto, eu gostei médio, viu?

Ellen, eu juro, juro de pés juntos que eu não tenho absolutamente NADA pra reclamar de você. Não que eu tenha o direito de reclamar da "amizade" de qualquer outra pessoa, ninguém vem com um número de SAC que eu possa ligar e despejar minhas frustrações (bem que podia, né?) mas mesmo que existisse esse número pra reclamar de você, eu não teria motivos pra ligar. Minto. Ligaria só pra reclamar a distância, pra reclamar que você aparece bem menos do que eu gostaria.

Tem um monte de coisas absurdas que acontecem por um propósito. Blééé, quem eu quero enganar? Eu acho isso uma grande idiotice haha! Ficar tentando achar sentido em tudo o que acontece, e em tudo que é Monalisa... É uma puta perda de tempo só pra no final você descobrir que todo o mistério do quadro, ou da vida, é só um traveco das antigas. Acontece que trabalhar naquela loja, cujo o único objetivo dos donos era enriquecer fazendo a gente passar vergonha, porque não é possível fazer um uniforme de oncinha e ainda querer que a gente trabalhasse usando vários colares e várias pulseiras e brincos gigantes e maquiagens neon fluorescente furta cor e em alguns casos extremos, peruca, tendo que dizer de 5 em 5 minutos a maldita frase "posso ajudar?"... Por causa disso, antes mesmo da popularização dos memes eu já fazia minha poker face pro Klinger*. Continuando, acontece que trabalhar no meio dessa patifaria toda, nesse momento da minha vida que apesar de ridículo eu não tenho vergonha nenhuma de contar, eu conheci você (que romântico).E no final, contrariando todas as estatísticas que eu calculo aqui na minha cabecinha, isso fez e continua fazendo todo o sentido pra mim. Conheci outras pessoas muito legais além de você também, mas você ficou, o que eu acho incrível porque depois que voltei pra casa dos meus pais, a gente praticamente não se viu mais. Então tem que haver algum sentido nisso, porra!

Eu não lembrava desse detalhe, mas obrigada por ter ido comprar aquele edredom comigo. Obrigada por ter passado um tempo na minha casinha. Obrigada por ter me acompanhado nas várias partidas de Guitar Hero. Obrigada pelas infinitas duas cervejas no Unibar. Obrigada por ter me dito coisas legais quando eu chorei patética e desesperadamente por ter levado um pé na bunda. Obrigada por rir comigo de coisas que ninguém ri e por rir mais do que eu até. Obrigada por ser essa pessoa criativa que me ajuda nas ideias, que se empolga junto comigo, mas por favor, tente não se desempolgar junto comigo também haha. Obrigada por ter esse cabelo lindo e ser linda idem  - mas eu te odeio por ter essa bunda grande com a minha sendo tão, tão reta. Obrigada por ter uma família tão legal com um pai que fica sacaneando suas amigas no MSN. Obrigada por ler os meus textos e ser simpática dizendo que gostou.

Sem a sua presença, um punhado de coisas que aconteceram na minha vida não teriam nem a metade da graça, e isso inclui até mesmo voadoras na parede.



Não digo com frequência, porque na verdade não é algo que eu goste de dizer, mas, amo ♥



*Significado de Klinger: 1- Bicha afetada e insuportável com mania de grandeza e total falta de noção do ridículo. 2- Pessoa contratada pra tornar ainda mais infernal a vida de pobres garotas que ele maltratava só por terem nascido com uma parte da anatomia feminina que ele sonhava em ter. 






segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Fala, Edgar.

"Eu já quis... Eu já quis ser tanta coisa!
Médico, astronauta, mergulhador. Começar uma banda, ser uma estrela da música latina de sucesso arrebatador. Começar um blog que daqui um ano eu vou vender por um milhão de dólares. Adotar um cachorro abandonado, pintar um quadro, aprender espanhol...'yo no hablo español, pero me encanta Rio'. Investir na bolsa... 
Fazer uma campanha contra as minas terrestres e as bombas Cluster. 
Escrever um livro...
Escrever um livro? Não. Um roteiro de cinema...
Começar uma revolução, ser um Che! Ah, ou talvez nada.
Bom, na dúvida eu me dedico a minha rotina favorita: pornografia e videogame. 
Ou se preferir, videogame e pornografia."

Dois Coelhos - Afonso Poyart

Ainda quero escrever sobre esse filme ♥

domingo, 20 de janeiro de 2013

Fazer o que se tem que fazer

Dramático assim mesmo, porque ninguém controla a vontade de simplesmente não fazer o que se tem que fazer. Não dá pra acordar todos os dias com uma postura de consultora de produtos de beleza, fazendo de conta que o otimismo é a coisa mais natural do mundo. Sai pra lá que o copo ta meio vazio pra você também que eu sei...

Agora preste atenção: não importa quanto dinheiro você ganhe ou quantos quilos você perca, nenhuma mudança durará o suficiente para que você se sinta tranquila. Somos ansiosos, querida. Somos os doentes terminais da desilusão e é inútil lutar contra o enfraquecimento das cores. Aconselho a conformar-se com a degradação dos móveis arrastados inúmeras vezes do seu lugar. Mas conforme-se principalmente com todas as voltas e todas as idas. Porque sua volta se dá antes mesmo de qualquer partida e estamos cansados de saber que ainda assim no final TUDO de repente(e novamente e constantemente) muda. O TUDO que achávamos velho até o momento do rompante, do surto corriqueiro. Mudar é a palavra de ordem - mudança é um vício e esse é o ciclo da nossa vidinha medíocre. O que incomodava passa a agradar, se enche de luz. E o novo, o perseguido e por fim conquistado, fica um tanto gasto e sem graça. Óbvio, não? Mas é isso. Somos andarilhos, querida. Somos e por isso não precisamos de um endereço. Não, não é um lugar o que buscamos, não é em um ponto de chegada que nos sentiremos confortáveis, não é cercado de muros e paredes que nós estaremos "em casa". Não existe lugar melhor para nós do que o próprio caminho.

Não mesmo.

Mas a vida é tão repetitiva.

Acordar, lavar o rosto, tomar o café.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

eu. meu gato vaquinha grande e carinhoso


O primeiro gato que eu tive (essa aí da foto) era do tipo  ♥vaquinha♥. Nota-se que era grande e mesmo com vagas lembranças,  concluo com absoluta certeza que ele era carinhoso, muito carinhoso.  Afinal,  eu era uma criança de quatro anos. Quatro. Anos. E durante todo o tempo em que eu o torturei com meu amor de Felícia, ele só me "atacou" ( se defendeu, aposto) uma vez que eu me lembre, que meus pais se lembrem.

Eu amava aquele/esse gato...

Num dos típicos finais de tarde da minha infância, em que toda a molecada da rua se juntava pra jogar futebol e eu ficava lá, bem de boa sentada na calçada olhando todo mundo se divertir (porque esporte nunca foi o meu forte desde sempre), eis que surge um garoto segurando o meu gato, que jazia duro e com uma expressão de horror nos olhos. Aquela expressão que transforma a fofura da cara de um gato na coisa mais medonha do mundo depois que ele morre. O garoto ergueu meu gato feito um troféu e perguntou se o gato era meu, me olhando com um puta sorriso de escárnio. Não respondi. Tentei forçar uma indiferença só que não me controlei. Entrei correndo em casa e fui chorar no meu quarto. Tão pequenina e tão clichê. Claro que meus pais foram saber o que aconteceu, claro que me consolaram, claro que eu continuava achando que a minha vida tinha perdido todo o sentido. Fiquei tão mal que tive febre a noite toda, acordei de manhã e continuava com febre. Não comia e só chorava. Não lembro o trajeto todo dessa novela mexicana, só sei que fiquei internada dois dias e até ~ novena ~ na minha rua fizeram pra que eu melhorasse. 

Toda trabalhada na tragédia, saí do hospital. Não lembro se foi um dia ou dois depois, só sei que numa tarde o pai de uma amiga foi até a minha casa e disse pra minha mãe que queria conversar comigo. Saí pra conversar com ele meio desconfiada, porque pais de amigas não iam a casa de outras crianças só pra jogar conversa fora né, a não ser que o contexto da conversa fosse uma bronca. Acontece que não era uma bronca. Quando eu saí, vi que ele segurava uma caixinha de papelão. Me lembro perfeitamente dele dizendo as palavras mágicas: tenho um presente pra você. Abri o portão e ele me mostrou o que tinha na caixa: um lindo gatinho siamês, magrelo e cheio de remela nos olhos azuis! Na hora foi uma felicidade tão instantânea, tão forte, que eu nem me darei ao trabalho de tentar explicar. Certo que na hora eu lembrei do meu gato vaquinha, grande e carinhoso. Mas com saudades e a tristeza totalmente empurrada pra lá, pra qualquer lugar longe do meu coração que só cabia amor por aquele novo gatinho. 

Acontece que hoje, uma das pessoas que eu mais amo, foi contemplada com um sorriso de escárnio da vida adulta. A pessoa mais guerreira de todas, não consegue levantar da cama nem pra praguejar o mundo. E eu fico aqui, tentando encontrar um lindo gatinho siamês, pra fazer ela empurrar essa tristeza pra lá... mas eu não consigo.

Me pediram pra rezar.

E se só for possível fazer isso, então eu mudo todas as convicções que eu tenho, ou acho que tenho, e coloco numa caixinha de papelão todas as orações que eu puder fazer por ela.